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Da saliva venenosa ao mercado trilionário:

  • Foto do escritor: Juliano Mix
    Juliano Mix
  • 7 de jan.
  • 3 min de leitura

Os medicamentos que hoje revolucionam o tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade — como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — movimentam um mercado estimado em cerca de US$ 1 trilhão e figuram entre os produtos mais rentáveis da indústria farmacêutica global. Por trás desse sucesso, porém, existe uma origem tão curiosa quanto improvável: a saliva venenosa do monstro-de-gila, um lagarto que habita regiões áridas do sul dos Estados Unidos e do norte do México.


A relação entre um réptil do deserto e medicamentos de alta tecnologia começou a ser construída a partir de estudos científicos que buscavam entender como esse animal consegue sobreviver em ambientes extremos. O monstro-de-gila (Heloderma suspectum) é um dos poucos lagartos venenosos conhecidos no mundo e chama atenção não apenas por seu veneno, mas por um comportamento metabólico considerado extraordinário.


O animal é capaz de viver fazendo apenas três ou quatro refeições por ano, uma adaptação evolutiva fundamental para regiões onde o alimento é escasso. Quando finalmente se alimenta, o lagarto consome, de uma só vez, até um terço do próprio peso corporal. Essa capacidade está diretamente ligada a um metabolismo lento e altamente eficiente, além de um controle preciso do apetite e do armazenamento de energia.


Intrigados com essa habilidade, cientistas passaram a investigar quais substâncias presentes no organismo do monstro-de-gila permitiam tamanha eficiência metabólica. Foi nesse contexto que pesquisadores identificaram, em sua saliva venenosa, uma molécula capaz de influenciar diretamente os níveis de açúcar no sangue e a sensação de saciedade.


A descoberta foi decisiva para o desenvolvimento dos análogos do hormônio GLP-1, base dos medicamentos que hoje transformaram a forma como médicos tratam distúrbios metabólicos. O GLP-1 é um hormônio naturalmente produzido pelo corpo humano, responsável por estimular a liberação de insulina, reduzir o apetite e retardar o esvaziamento do estômago. A molécula inspirada no veneno do lagarto apresentou uma ação prolongada, tornando-se ideal para uso terapêutico.


Com o avanço da biotecnologia, essa inspiração natural deu origem a medicamentos inovadores que passaram a ser utilizados inicialmente no tratamento da diabetes tipo 2. Com o tempo, os efeitos significativos na redução do peso corporal ampliaram seu uso no combate à obesidade, uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.


O impacto científico rapidamente se converteu em impacto econômico. Hoje, os medicamentos à base de GLP-1 estão entre os mais prescritos e lucrativos do planeta, redefinindo estratégias de tratamento e movimentando cifras bilionárias. A importância dessa descoberta ficou ainda mais evidente em novembro de 2025, quando a farmacêutica Eli Lilly atingiu um valor de mercado de US$ 1 trilhão, tornando-se a primeira empresa do setor farmacêutico a alcançar esse patamar histórico.


Até então, o seleto grupo de companhias trilionárias era dominado por gigantes da tecnologia. A entrada da Eli Lilly nesse clube exclusivo foi impulsionada, principalmente, pela valorização de mais de 35% de suas ações em apenas um ano, crescimento diretamente ligado à expansão acelerada do mercado de medicamentos para perda de peso.


O que começou como uma investigação sobre a sobrevivência de um lagarto do deserto acabou se tornando uma das maiores revoluções da medicina moderna. A trajetória do monstro-de-gila mostra como a natureza, mesmo em suas formas mais improváveis, pode oferecer soluções para alguns dos maiores desafios da saúde humana.


Da saliva venenosa de um réptil ao desenvolvimento de remédios que transformaram vidas e mercados, essa história reforça o papel da ciência em observar, compreender e transformar o conhecimento em inovação — com impactos que vão muito além dos desertos onde tudo começou.


Redação Folha de Três Barras

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